Eles não ligam para a gente! Parece que me inspirei na música de Michael Jackson "They don´t care about us" para iniciar esse texto, mas na verdade minha base é muito mais crua e obscura, e o que é mais grave, real.
O problema da imigração é muito antigo, e seria repetitivo recontar por aqui a fuga de africanos e sírios para a Europa fugido de guerras que corroem e destroem suas raízes. Essa história, que com certeza é muito mais triste, é repassada na TV, nos jornais, nas mídias em gerais.
Mas o que fazer com o imigrante invisível, aquele que você sabe que está no exterior, mas acha que ele está super bem pelas belas fotos que posta na rede?
Bem, o imigrante invisível está aqui, falando com quem puder ler. O imigrante invisível não é igual, somos diferenciados. Alguns de nós acha essa "aventura-perrengue" uma coisa legal, e faz tudo por um euro. Outros, com dupla cidadania, já acabam conseguindo coisa melhor, porque um Stamp 4 aqui pode te levar além. Não que alguém com Stamp 2 não consiga, mas o caminho é penoso algumas vezes. Não com todo mundo, mas ao menos para mim. E eu sou outra categoria de imigrante.
Explico: eu vim para a Irlanda para tentar uma bolsa de estudos de mestrado e fazer meu exame de proeficiência. No Brasil me contaram que a Irlanda era a melhor opção, porque eu poderia trabalhar. Mas não vim só focada nisso: o mestrado que realmente quero fazer está aqui. Meus escritores favoritos são Irlandeses, Wilde, Shaw, Joyce, Becket, Stoker, então estudar esses camaradas em seu ambiente seria coisa de sonho. Seria!
Primeiramente demorei 2 meses para imigrar, o que acabou me custando 2 meses de estadia aqui (a imigração descontou o período que eu estava aqui). Finalmente "imigrada" meu problema virou o emprego, Todo lugar que eu vou nem me entrevisto, já me negam. E olha que preparei o CV sob supervisão de um professor da escola. Já recebi 25 "nãos" e anseio para saber quando virá meu "sim". Achei que iria arranjar emprego rápido, porque eu já sou fluente em Inglês, e mais 3 idiomas (O meu Português, juntamente com Francês e Espanhol). Estou focando em trabalhar em idiomas e hotéis, mas eles são rápidos na negativa.
Outro grande problema aqui é moradia. É caro, e não tem espaço, então eles te despejam e te aceitam da maneira que bem entendem, porque sempre tem demanda. E onde tem oferta e procura tem sempre uma pessoa enchendo os bolsos. Ganhar dinheiro não é errado, mas a forma como se ganha dinheiro é que é contestável. Lucrar com o infortúnio é errado.
Observo vídeos de pessoas incentivando outras a fazerem dívidas no Brasil para vir para cá. Por favor, não escutem esses irresponsáveis! Não façam dívidas que talvez não possam pagar - ou que talvez possam mas a que custo? Pesquise, pesquise muito, e mesmo assim, o imprevisto pode acontecer.
Me peguei sexta-feira sendo despejada, o landlord querendo a casa para pintar e vender. Tive que sair domingo, e volar para a residência estudantil. Pagar mais caro para dividir um mini quarto com 3 pessoas, quando eu tinha um quarto só meu. Pelo menos aqui teria café da manhã. Será? Por dois dias a responsável pelo café simplesmente não abasteceu a despensa. Eu soube pelos outros alunos que eles estavam sem o café (pago antecipado) desde sábado. Comuniquei a escola, que só agradeceu eu ter comunicado, e já queria me cobrar a semana que vem, que eu nem sei se vou ficar, porque cheguei domingo, e hoje é terça-feira. Eles não ligam para nós! Repito. Eles não ligam para nós!
Somos tantos que viramos gado, e como muita gente aceita, dizendo "Dublin é assim", as pessoas entoam um mantra que está longe de ser verdade. Não precisa ser assim. É assim porque as pessoas aceitam que seja assim. Se a maioria não aceitar, vai mudar. Ao menos, deveria.
Nessa de tentar ao menos achar uma solução para a menor das coisas, o café-da-manhã, descubro que a mulher que me vendeu a viagem não trabalha mais na empresa. Ou seja, minha ponte Brasil-Irlanda se desfez, só que eu estou aqui. E desamparada, sem emprego, e sem morada.
Através de minha mãe, e de minha agência de passagens, consegui chegar ao diretor da empresa, que na hora de ajudar, falou para eu falar com uma pessoa na escola que não apita nada, ou seja, ele está empurrando o problema, como é de praxe fazer.
Minhas fotos na rede social continuam sorridentes, em paisagens de sonho, mas a realidade está longe de ser bonita.
A verdade é que algumas pessoas deixam o país porque não têm possibilidades de adquirir o que gostariam nele. Então, por mais necessidade que aqui possam passar, acham que tudo está ok porque o dinheiro está entrando no bolso, e no fim-de-semana há a possibilidade de uma viagem, posto que em 1h se muda de país como se muda de estado na terra natal.
Mas algumas deixam a casa para atrás para se aperfeiçoar (como o meu caso) e acabam esbarrando com ignorância, recalque e xenofobia. Minha vida era muito boa antes de vir para cá: tinha emprego, tenho uma casa, meus amigos e familiares me amam e temem por mim aqui. Não vim para fugir de um país que detesto, vim para retornar para esse país uma cidadã melhor, para poder fazer pelo meu país algo melhor.
Vim para cá não para descobrir quem sou - alguns pessoas precisam de viagens espirituais. Eu não. Eu sei quem eu sou, e essa pessoa está aqui, lutando para não ter sua essência corrompida de modo brutal. Essa pessoa não mudou, talvez um pouco vulnerável e fragilizada, mas essencialmente ela mesma.
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