quarta-feira, 24 de maio de 2017

Dublin, 23 de maio de 2017

Fiquei triste porque não vou na viagem. Me pediram para trabalhar. Vocês podem dizer "não é seu dia, você pode falar para se virarem" mas a realidade na prática difere da teoria em vários aspectos. Primeiro porque você não deixa quem te dá a mão na mão - gratidão é uma palavra de ordem que muitas pessoas esquecem. Segundo eu moro lá, tenho que ponderar muitas coisas e tenho que ser prestativa. No mais quem mudou os planos primeiro foi a escola, porque a viagem era para ser numa terça, e não numa quarta-feira. Por isso que me devolveram o dinheiro, porque a grande culpada no fundinho é a escola.

Eu preferia ir, mas estou reembolsada, nas férias eu tiro um dia e vou por conta própria. Não é a mesma coisa, fica até mais caro, porque como estudante há desconto, mas fazer o quê? Há muito aprendi que não se chora por coisas que não farão diferença daqui há alguns minutos.

Insatisfações resolvidas a parte, e fora o cansaço de ter dormido num sofá enrolada num saco de dormir (e não é que esses sacos de dormir são bem confortáveis e quentinhos? Quero um), estou muito feliz por causa da peça. Ah, vou perder o ensaio de quarta também, mas vou estar disponível todas as noites de peça, isso que importa.

Eu daqui da Irlanda fico muito preocupada com minha amiga Luciana lá em Nova Friburgo. Ela ainda está tão triste com a passagem do gatinho Kadu. É péssimo perder um amigo, um bichinho, um familiar, mas a única certeza real que temos nessa vida é que nascemos e morremos. Uns antes, outros depois, então cada vez chego mais a conclusão que a gente veio mesmo é para ser feliz e fazer as pessoas felizes e o que está no meio é lucro. Logo, não fique triste Lu, o Kadu está no céu dos bichinhos e cumpriu a missão aqui de ter sido seu companheirinho por tantos anos.

Agora que decidi que devo voltar, começo a aproveitar melhor minha estadia aqui. A pressão saiu dos meus ombros e é um alívio. Ao mesmo tempo que muita gente dá palpite para que eu fique não sabendo as condições que vivo e outras me dão conselhos que eu volte sabendo o que acontece aqui e lá, eu prefiro a opinião de quem conhece e claro, minha própria experiência. Não pensem que vim na louca para cá, sem planos. Foi tudo muito bem planejado, o que acontece é que numa situação dessas nunca é de acordo com os planos, ou é melhor ou é pior, mas nunca como os planos. Quando o seu destino não está só na sua mão, mas do destino e de terceiros, óbvio que mudanças irão acontecer. De uma forma ou de outra, é sempre para o bem.

Eu não acredito em fracassos. Ter tido um pai tão pessimista e negativo me fez ver a vida com outros olhos. Logo, tenho muito que agradecer a ele, porque a negatividade dele ao invés de me derrubar, me levantou. Atrevo a dizer que me fez tão forte que mesmo que por um momento eu me sinta vulnerável, pouco depois já estou restabelecida. Parafraseando, não acredito em fracassos, acredito em experiências. Pode não ser do jeito que queríamos mas aconteceu, e gerou frutos.

Uma amiga aqui outro dia me disse que queria se recuperar rápido dos baques da vida como eu. E ela pode! Basta enxergar a vida de modo mais gentil. A escolha do lado leve e gentil é nossa. No meio de tanta coisa ruim que vemos e ouvimos, temos que criar uma "jardim secreto" interno para afugentar os problemas.

Não é baboseira filosófica. É verdade. Experimente e me diga!

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